Perceber o que significa sinodalidade

Ser uma “Igreja sinodal” significa encontrar-se em terreno comum como iguais pelo baptismo e onde todos, incluindo padres e bispos, devem verdadeiramente ouvir toda a gente.

Nós, como Igreja – em todo o mundo – estamos a preparar-nos para um “sínodo sobre a sinodalidade” em 2023.

O Papa Francisco está a pedir-nos para nos tornarmos “uma Igreja sinodal”. E em vários lugares os católicos estão a preparar-se para “sínodos” de vários tipos.

Em menos de uma década, “sínodo” deixou de ser uma palavra técnica usada por advogados e burocratas da Igreja para ser uma palavra na moda – e, aparentemente, que aponta para uma fórmula mágica que pode resolver os problemas realmente profundos que nos afligem na Igreja hoje em dia.

Mas se a maioria está a gritar: “Vamos fazer sinodalidade!”, lá no canto há uma vozinha que diz: “Mas eu nem sei o que isso significa!”. Até o meu computador acha estranho e de todas as vezes que digito “sinodalidade”, o corrector ortográfico automático sublinha a palavra.

Se sente que não sabe o que significa sinodalidade, não está mal, porque ninguém sabe exactamente o que significa.

Há alguns anos, o Papa pediu à Comissão Teológica Internacional (CTI) que preparasse um documento sobre a sinodalidade e eles tiveram que admitir que era uma palavra nova. Os significados mais antigos do sínodo (uma reunião de bispos) eram de pouca utilidade, e os membros da CTI tentaram encontrar paralelos na história que pudessem explicá-la. O resultado é um documento muito prolixo que contém muitas partes interessantes. Mas, quando terminei de lê-lo, não soube explicar porque nos seria muito útil a sinodalidade. Significa isso que o Papa Francisco perdeu a noção? Eu acredito que seja exactamente o oposto!

Quando se quer ser criativo, descobrir novas soluções e enfrentar o futuro como um desafio, sabendo que o Espírito está connosco, é melhor não partir de um ponto muito fixo e definido. Em vez disso, é melhor começar com uma imagem semelhante a um sonho, mal definida – um esboço ou um apontador geral. E então ver – através do pensamento, discussão e oração – como pode o futuro parecer. Se o futuro é o desafio do desconhecido, então o lugar errado para começar é com uma ideia muito firme derivada do passado.

Que imagens é que a sinodalidade evoca?

Portanto, o que precisamos de fazer agora não é definir a sinodalidade, mas perguntar-nos o que tal imagem traz à nossa mente. O significado mais simples de sínodo é um local de encontro. Era um encontro de líderes da Igreja de uma região onde discutiam os seus problemas e tentavam encontrar soluções.

Na mítica história da Igreja, essas foram grandes assembleias que “resolveram” problemas. Mas, na realidade, geralmente eram assuntos muito mais complicados, e a solução proposta numa reunião para um problema criava outro. E, então, foi necessária mais uma reunião para resolver os problemas criados pela reunião anterior.

No entanto, se pensarmos num “ponto de encontro” de um aeroporto, podemos ter uma imagem básica com a qual poderíamos trabalhar. O que é que um ponto de encontro supõe entre aqueles que se encontram? Obviamente, chegamos a um ponto de encontro a partir de diferentes lugares e direcções. Podemos estar todos numa peregrinação de fé comum como Povo de Deus, mas estamos a começar de muitos lugares e temos diferentes necessidades, problemas e percepções. Não há ninguém que saiba quais são os problemas ou onde estamos agora.

Chegando de lugares diferentes, pressupõe-se que haja muitos de nós e que nos encontremos em terreno comum como iguais. Isso é exactamente o oposto de um único líder a agitar uma faixa e a gritar para todos: “Sigam-me! Por aqui!”. Um lugar de encontro pressupõe diálogo e partilha de ideias e experiências. O ponto de encontro é um espaço comum a todos os que ali chegam.

Não é que se espere que todos saibam a localização de um sítio em particular e depois partam, como os trabalhadores da fábrica vão ao escritório do capataz para saberem o que fazer. Quando as pessoas se encontram, presume-se que cada uma delas deseja encontrar a outra, estar na presença delas, e que cada uma ouvirá e partilhará com as outras.

Os pontos de encontro são, por natureza, espaços não hierárquicos. Isto vai ser difícil para os católicos. Ao contrário de algumas igrejas reformadas, nunca sublinhamos a nossa igualdade no baptismo. Temos uma tradição de alguns que falam e têm as respostas, com o resto a seguir e a ouvir.

Em Latim, expressamos isto como a ecclesia docens (a Igreja docente) e a ecclesia discens (a Igreja ouvinte). Na linguagem comum, isto é expresso como “o Padre sabe mais” ou que o dever dos chamados católicos comuns é “orar, pagar e obedecer”.

Se formos para um ponto de encontro ainda a cultivar estas ideias, será uma perda de tempo. E, pior, muitos irão sentir-se traídos por uma falsa promessa.

Um desafio de dois sentidos

Quando ouço algumas pessoas a falarem sobre o magistério – a autoridade para falar e ensinar na Igreja – percebo que elas acreditam que isto se limita realmente aos bispos e àqueles que concordam com eles.

Está bem, desde que não pensem num sínodo sem envolver ninguém para além dos bispos (e a maioria dos sínodos na história da Igreja foram de assuntos apenas para bispos).

Mas, se quisermos falar sobre uma Igreja sinodal e convidar outras pessoas para o ponto de encontro, então todos se devem ouvir uns os outros. É difícil haver uma escuta mútua real de quaisquer duas pessoas que se tenham encontrado.

Não deve ser alguns irem simplesmente ouvir o que dizem os bispos, ou que os bispos apenas escutem as suas irmãs e irmãos como parte de um exercício de investigação antes que eles, os bispos, saiam e decidam o assunto. A verdadeira escuta forma uma nova comunidade de iguais.

Assim, cada um deve falar. E isso significa envolver-se num processo de oração, estudo e reflexão.

Não é simplesmente dizer: “Eu gostaria disto”. Não estamos a reunir-nos como fornecedores e consumidores, mas como irmãs e irmãos.

Uma Igreja ponto de encontro

Estes sínodos, agora, são acontecimentos isolados. Mas temos que aprender novas maneiras de nos relacionarmos.

Vai ser difícil e vai ser uma confusão.

Muitos bispos e presbíteros verão o sínodo apenas como comités que fazem perder tempo. Muitos leigos acharão isto muito exigente. Uma visão consumista da religião pode estar longe da imagem do discipulado, mas é uma tentação constante.

Alguns padres cresceram em sociedades profundamente patriarcais em forma de pirâmide e, portanto, vêem a autoridade e a verdade. Isto está em desacordo com a visão dos “seus paroquianos”, que vêem as coisas de outra forma.

Vai ser difícil! Mas ter esse objectivo difuso – uma Igreja ponto de encontro – vale a pena. É fundamental para a nossa imagem da nossa relação com Cristo ressuscitado.

“Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai” (Jo 15,15).

Artigo do Pe. Thomas O’Loughlin, publicado no La Croix International a 10 de Novembro de 2021.

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