Percepções e lições de uma assembleia Sinodal anterior

Uma retrospectiva da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos de 1985, que marcou o vigésimo aniversário do Vaticano II.

No momento em que embarcamos nas reflexões para o intitulado “Sínodo sobre a Sinodalidade”, pode ser interessante relembrar uma assembleia sinodal que aconteceu noutra época!

Em 1984, João Paulo II anunciou que uma assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos aconteceria no ano seguinte para marcar o 20º aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II (1962-65).

Na altura em que essa assembleia ocorreu, em 1985, a Igreja já havia perdido muitos dos principais especialistas em teologia do Concílio. Karl Rahner SJ morreu em 1984. Yves Congar OP estava com a saúde muito debilitada. Hans Küng e Edward Schillebeeckx OP foram, efectivamente, postos à margem.

Joseph Ratzinger, pelo contrário, era agora prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Foi durante este período que emitiu as suas duas declarações questionando a validade da Teologia da Igreja da Libertação.

Parece que foi em grande parte a pedido de Ratzinger que esta assembleia extraordinária do Sínodo foi convocada. Em pouco tempo, questões preparatórias e um documento básico foram preparados para as discussões e os bispos finalmente reuniram-se durante um breve período de duas semanas, de 24 de Novembro a 8 de Dezembro.

Processo criticado

Invocado para celebrar e compreender melhor o Concílio e para lançar as bases do seu futuro para ajudar na apreciação dos sinais actuais dos tempos, o processo foi alvo de fortes críticas. “A grande dificuldade em atingir os objectivos fixados foi a curta duração do Sínodo (… apenas 11 dias para trabalho real) e a falta de tempo para a preparação”, disse o cardeal brasileiro Aloisio Lorscheider OFM.

D. Aloisio considerou que, embora os aspectos da celebração e do aprofundamento tenham sido razoavelmente bem tratados, a forma como o trabalho do Conselho iria ajudar a enfrentar os sinais actuais dos tempos não foi feita de forma adequada.

O cardeal expressou essas ideias num artigo publicado numa edição especial da revista teológica internacional Concilium.

Tendo surgido um ano depois daquela assembleia extraordinária do Sínodo, a edição apresentava avaliações de alguns dos principais especialistas teológicos e canónicos da altura. Incluía Avery Dulles SJ, Joseph Komonchak e James Provost, dos Estados Unidos; o dominicano franco-canadiano Jean-Marie Tillard; e outras figuras internacionalmente conhecidas, como Peter Huizing, Herman Pottmeyer, Jan Kerkhofs e Ronaldo Munoz.

Na sua contribuição como canonista, Provost tratou de um dos tópicos que saíram da Assembleia Sínodo de 1985 – a Reforma da Cúria Romana (de novo!).

Relações entre as estruturas da Igreja

Provost apontou três eras de estrutura na Igreja.

No Primeiro Milénio, a Igreja Romana operou quase da mesma maneira que as outras Igrejas patriarcais; isto é, de uma forma sinodal (que naquela época estava confinada principalmente ao presbitério em Roma e às reuniões maiores e mais internacionais ocasionais).

Uma segunda era começou no século XI, quando a Igreja assumiu a aparência de uma corte principesca de estilo ocidental. Então, na esteira da Reforma, tornou-se na primeira burocracia moderna.

Para Provost assim permaneceu em 1985, embora no período preparatório e no próprio Sínodo a relação entre a Cúria e o Sínodo fosse um ponto-chave de discussão (como é mais uma vez hoje, mas agora com uma visão mais ampla da sinodalidade).

As relações entre as estruturas da Igreja foram um tema constante de discussões na assembleia sinodal de 1985.

Como é que a colegialidade deveria ser entendida? Qual era a relação entre Papa e os bispos? Como é que um sínodo encaixou nisto? Que posição na Igreja pode ser dada às conferências episcopais nacionais e regionais?

Todas estas questões, assim como outras, foram muito debatidas durante este processo. Não são muito diferentes das questões que são estudadas hoje, mas agora num contexto muito diferente.

Do optimismo ao pessimismo

Em 1985, o (ingénuo?) optimismo do fim do Concílio, vinte anos antes, tinha-se dissipado. Os acontecimentos mundiais levaram as pessoas a abandonar as grandes esperanças do início dos anos 1960 e adoptar uma visão mais pessimista da natureza humana.

Uma contribuição muito forte para esta perspectiva foi dada pelo grupo de língua alemã na assembleia sinodal, que incluía cardeais conservadores poderosos como Ratzinger, Joseph Höffner (de Colónia) e Joachim Meisner (então de Berlim).

“A crise actual na Igreja deve-se amplamente ao mundo secularizado que está a ser importado para ela, sobretudo na forma de emancipação acentuada, subjectivismo, horizontalismo e consumismo”, disse o grupo alemão.

Este ambiente crítico permeou as discussões sobre como as categorias sociológicas contaminaram a compreensão teológica da Igreja. Assim, a imagem-chave da Lumen gentium da Igreja como Povo de Deus foi criticada por ter levado a um “falso” nivelamento da Igreja.

A comunhão também foi reduzida à sua dimensão horizontal, segundo esses críticos alemães. No seu lugar, o “Mistério” voltou a ser posto em primeiro plano como um correctivo e impulsionador da restauração, aos olhos dos seus proponentes, da dimensão vertical da Igreja.

Subsidiariedade, conferências episcopais e diálogo

Embora positivo na sua avaliação do Relatório Final da Assembleia Sinodal de 1985, Jean-Marie Tillard OP observou que havia algumas questões pendentes que precisavam de mais discussão. Isso incluía a “subsidiariedade” e o papel das conferências episcopais.

Estas tinham sido fortemente criticadas no ano anterior, num relatório da Comissão Teológica Internacional, presidida por Ratzinger. A ideia de que eram de alguma forma expressões de colegialidade foi considerada “teologicamente inadmissível”!

Como os tempos mudaram!

O principal resultado da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos de 1985 foi, em última análise, a produção do Catecismo da Igreja Católica, algo a que muitos prelados haviam apelado. Outro resultado, no entanto, foi um travão eficaz ao diálogo tanto dentro da Igreja como entre a Igreja e outros grupos.

Uma voz profética da América Latina

Felizmente, mesmo que tardiamente, quase quarenta anos depois, uma atmosfera diferente prevalece no que o Papa Francisco está a pedir como preparação para o actual “Sínodo sobre a Sinodalidade”.

Francisco tem uma vasta experiência de métodos sinodais na sua América Latina natal e cita regularmente nos seus próprios escritos documentos produzidos por conferências episcopais em todo o mundo.

Na verdade, naquele número da Concilium de 1986, coube a duas vozes daquele continente serem proféticas sobre as necessidades do futuro.

O Cardeal Lorscheider, que na altura estava empenhado em apoiar o seu colega franciscano Leonardo Boff na cação movida contra ele pela CDF, concluiu as suas reflexões escrevendo o seguinte: “A ideia de que a Igreja deve mudar a sua posição na sociedade ainda tem poucos avanços ao nível da Igreja universal. Houve até o cuidado de evitar a palavra «libertação» no relatório final, sendo preferida a expressão «salvação integral». Da minha parte, não vejo muita diferença entre a libertação integral em Jesus Cristo e a salvação integral em Jesus Cristo”.

O teólogo chileno Ronaldo Munoz, comentando o relatório que a Comissão Teológica Internacional publicou pouco antes da assembleia sinodal de 1985, observou que apresentava uma “marcante eclesiologia clerical e hierárquica que, espera-se, provocará uma crise – para o bem da Igreja -– no próximo sínodo mundial, a ser consagrado aos leigos”.

A “crise” está tem estado a fermentar há algum tempo, mas talvez esteja, finalmente, prestes a dar frutos “para o bem da Igreja”.

Artigo do Pe. Sean Hall, publicado no La Croix International a 19 de Novembro de 2021.

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